ESTE NÃO É O MEU CAMINHO

bifurcacaoUmas SMS sugerem aos professores que se demitam dos órgãos de gestão para lançar o caos na educação.

Outras afirmam que o processo de avaliação já está suspenso…

Este é um processo lamentável que não dignifica quem o patrocina e, mais grave, não credibiliza toda uma classe profissional. Os professores sérios e dignos não se revêem nestas formas abstrusas de agitação ao nível do melhor estilo PREC.

Não sei de onde partiram estas SMS… sei sim que este não é o meu caminho.

Estou indignado e chocado com toda esta situação… Não é assim que damos voz à nossa razão.

Estamos num estado de direito. As leis devem ser cumpridas…

É nos locais próprios que os professores, através das suas organizações sindicais, devem esgrimir pontos de vista. Esse local é a concertação social. É através do diálogo social que as diferenças são resolvidas. É assim que se vive em democracia. Respeitando as regras de um estado de direito.

O Diploma deve ser aplicado… Se os sindicatos já não querem participar na Comissão Paritária que eles próprio sugeriram, então que seja o Conselho de Escolas e os órgãos e estruturas das escolas e agrupamentos a, seriamente, colocarem todas as questões pertinentes e todas as alterações necessárias para que o sistema de avaliação seja mais confortável para todos nós, mais exequível, com menos espaço ao arbítrio de alguns, …

Muitos dizem-me: vem por aqui. Eu respondo que por aí não vou. Esse não é o meu caminho… O meu caminho é o da democracia, da liberdade, do estado de direito, da responsabilidade, da ética e do diálogo social.

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!

José Régio, in Poemas de Deus e do Diabo

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